É uma das dúvidas mais comuns de quem trabalha com aço na obra. A barra chega reta, alguém precisa de um gancho, de um estribo ou de um ferro de espera, e a pergunta aparece logo em seguida. Dobrar esse vergalhão vai enfraquecer o aço?
A resposta curta é que não, dobrar em si não enfraquece. O vergalhão é feito para ser dobrado, tanto que a ABNT NBR 7480 exige um ensaio de dobramento junto com o de tração para o material ser aceito. O que fragiliza a barra não é a dobra, é o raio com que ela foi feita. Este texto explica o que acontece dentro do aço nesse momento, por que o raio decide o resultado, o que a norma controla e quais práticas de canteiro cobram o preço mais caro.
O que acontece dentro do aço quando a barra dobra
Quando uma barra reta vira uma curva, as duas faces dela deixam de ter o mesmo comprimento. A face de fora da curva precisa percorrer um caminho maior e é tracionada, ela se alonga. A face de dentro percorre um caminho menor e é comprimida. Entre as duas existe uma região que praticamente não muda de comprimento, a linha neutra.
Essa deformação é permanente, e é exatamente isso que se espera. O aço para concreto armado é escolhido, entre outros motivos, por aceitar deformação plástica sem romper. É a mesma propriedade que faz uma estrutura avisar antes de falhar, em vez de partir de forma seca. Dobrar é usar essa característica de propósito.
O problema começa quando o alongamento exigido da fibra externa passa do que aquele aço consegue absorver. A partir daí aparecem microfissuras na face externa da curva, e a barra deixa de ter naquele ponto o comportamento que o cálculo assumiu. O detalhe cruel é que esse dano nem sempre se enxerga. A peça continua com aparência de barra dobrada normal.
Por que o raio da dobra decide o resultado
Duas barras iguais, dobradas no mesmo ângulo, podem terminar em situações completamente diferentes. O que separa uma da outra é o raio da curva.
A lógica é geométrica. Quanto mais fechada a curva, menor o trecho de barra que precisa absorver toda a mudança de direção, e maior o alongamento que a fibra externa tem que entregar nesse trecho curto. Abrir o raio distribui a mesma mudança de direção por um comprimento maior de barra, e a exigência sobre cada pedaço da fibra externa cai.
Na prática, quem define esse raio é o pino de dobramento, também chamado de mandril, que é a peça cilíndrica em torno da qual a barra é curvada. Diâmetro de pino maior produz curva mais aberta. Diâmetro menor produz curva mais fechada.
É aqui que a dobra industrial e a dobra improvisada se separam. Uma máquina de corte e dobra trabalha com mandril calibrado e selecionado conforme a bitola e o tipo de aço. Já dobrar apoiando a barra na quina de uma bancada, em um pedaço de cano ou fazendo alavanca com um pé de cabra não estabelece raio nenhum. O raio passa a ser o que a improvisação permitir, e costuma ser bem mais fechado do que o previsto.
O que a norma controla na dobra
Existem dois momentos distintos, e vale separar porque eles são confundidos com frequência.
O primeiro é a aceitação do material. A ABNT NBR 7480, que trata das barras e fios de aço destinados a armaduras de concreto armado, define as categorias CA-25, CA-50 e CA-60 e exige ensaios de tração e de dobramento. No ensaio de dobramento a amostra é flexionada sobre um pino cujo diâmetro é fixado em tabela da própria norma, e a barra precisa passar por isso sem apresentar fissura. Ou seja, o material que sai da usina já foi verificado quanto à capacidade de ser dobrado.
O segundo momento é a execução da armadura. Aí entram os diâmetros mínimos de pino de dobramento a serem respeitados na fabricação da peça, que variam conforme a bitola e a categoria do aço.
| O que é controlado | Onde está definido | Valor |
|---|---|---|
| Pino do ensaio de dobramento na aceitação | ABNT NBR 7480, tabela do anexo | a confirmar com a norma vigente |
| Diâmetro mínimo de pino na execução da armadura | ABNT NBR 6118 | a confirmar com a norma vigente |
| Alongamento mínimo por categoria de aço | ABNT NBR 7480 | a confirmar com a norma vigente |
Vale registrar o que a norma não resolve. O ensaio de aceitação prova que aquele lote de aço aceita ser dobrado nas condições do ensaio. Ele não garante que quem dobrou a barra no canteiro respeitou o raio previsto. Material conforme e execução conforme são duas coisas diferentes, e só a primeira vem com laudo.
Os erros de canteiro que fragilizam a barra
Reunindo o que costuma aparecer na prática, em ordem aproximada de frequência.
- Raio improvisado. Dobrar na quina da bancada, em cano ou com alavanca. É o mais comum de todos, e é o que produz curva mais fechada do que a prevista sem que ninguém perceba.
- Desdobrar e dobrar de novo no mesmo ponto. É a prática de maior risco da lista. A deformação plástica se acumula em uma região que já foi solicitada uma vez, e o dano se soma. Quando houver dúvida sobre uma peça nessa situação, a decisão cabe ao responsável técnico da obra.
- Dobrar sobre uma dobra existente ou muito perto de um ponto de solda. Nos dois casos a barra já teve o comportamento alterado naquele trecho.
- Tratar CA-60 como se fosse CA-50. As duas categorias não têm a mesma ductilidade. O CA-60 tem alongamento mínimo menor, e por isso responde de forma diferente à mesma dobra. Trocar uma pela outra achando que a única diferença é resistência é erro de especificação, não de execução.
- Confiar na inspeção visual. Microfissura na face externa da curva não se anuncia. A barra segue com aparência de peça normal, e o problema só apareceria sob carga.
É por isso que a dobra industrial não é apenas uma questão de produtividade. Máquina com mandril calibrado repete o mesmo raio em todas as peças do mesmo pedido, e essa repetibilidade é o que separa uma armadura previsível de um lote em que cada peça foi dobrada de um jeito.
Resumo para levar ao canteiro
Dobrar não enfraquece o vergalhão, dobrar errado enfraquece. Ao curvar a barra, a fibra externa se alonga e a interna comprime, e quanto mais fechada a curva, maior o alongamento exigido em um trecho curto. Passando do que o aço absorve, aparecem microfissuras na face externa que normalmente não se enxergam. Quem define esse limite é o raio, e quem define o raio é o pino de dobramento. A ABNT NBR 7480 exige ensaio de dobramento na aceitação do material, com pino de diâmetro fixado em tabela, e a execução da armadura segue os diâmetros mínimos de pino da ABNT NBR 6118. Na obra, os erros que mais cobram preço são o raio improvisado em cano ou quina de bancada, o desdobrar e redobrar no mesmo ponto, a dobra sobre dobra e o uso de CA-60 no lugar de CA-50 sem considerar a diferença de ductilidade. Material com laudo prova que o aço aceita ser dobrado. Não prova que ele foi dobrado direito.